Tratamentos dermatológicos na gestação

Opções terapêuticas para diversas patologias do tecido cutâneo no período da gestação.

Os tratamentos dermatológicos seguros durante a gestação requerem um cuidado especial na escolha dos ativos a serem utilizados, bem como sua dosagem e administração. O risco teratogênico e o benefício terapêutico devem ser cuidadosamente ponderados para a mãe e, eventualmente, também para o bebê (HAUTARZT, 2010).

Os médicos são geralmente relutantes em prescrever medicamentos dermatológicos para pacientes gestantes ou lactentes, pois o tratamento é muitas vezes eletivo e pode ser prejudicial a paciente, ao feto ou a lactente. No entanto, alguns medicamentos dermatológicos eficazes foram determinados como seguros durante a gravidez e a lactação (LEACHMAN & REED, 2006).

Um estudo investigou as opções de tratamento para algumas doenças dermatológicas comuns durante gravidez. As opções terapêuticas para diversas patologias do tecido cutâneo no período da gestação, são preferencialmente de uso tópico, sendo estas muitas vezes ainda escassas, devido a sua atuação no organismo da gestante e do feto (DEMIR et al., 2018; AWAN & LU, 2017).

O tratamento tópico é preferencial no tratamento da acne ao longo da gestação. A clindamicina e peróxido de benzoíla tópica são considerados seguros. Metronidazol de uso tópico é minimamente absorvido e considerado seguro durante a gravidez. Ácido azeláico tópico também tem pequena absorção e é considerado seu uso seguro no período gestacional (ZIP, 2006; AWAN & LU, 2017; DEMIR et al., 2018).

Contra indicações durante a gestação

O uso da tretinoína tópica não é aconselhável devido a relatos de casos de malformações congênitas em recém-nascidos cujas mães usaram tretinoína durante o primeiro trimestre da gravidez. A utilização de adapaleno e tazaroteno também não é recomendada.

A isotretinoína oral é um teratogênico conhecido, no entanto, é seguro que as mulheres engravidem um mês após esta medicação ser interrompida (ZIP, 2006; DEMIR et al., 2018).

As tetraciclinas estão associadas com a coloração amarelada dos dentes quando feita após o primeiro trimestre, diminuição do crescimento ósseo e toxicidade hepática materna. Contudo, é extremamente improvável que seja prejudicial a exposição acidental nas primeiras semanas de gravidez (ZIP, 2006; DEMIR et al., 2018).

A eritromicina tópica tem sido apontada como segura durante a gestação. Apesar disso, dois estudos suecos recentes relataram um aumento do risco de malformações cardiovasculares com o uso de eritromicina oral, no início da gravidez (ZIP, 2006).

Os retinoides de uso oral tem uma relação causal com as malformações congênitas, sendo assim, são contra indicados durante a gravidez. Espironolactona são contraindicadas na gestação devido ao risco de feminilização do feto masculino (AWAN & LU, 2017; DEMIR et al., 2018).

Possíveis terapias para tratamento da acne durante a gestação

O tratamento da acne vulgar pode fazer uso de diversas terapias de uso tópico, oral e físico. No entanto, as opções terapêuticas são reduzidas quando presente no período da gestação.

Algumas terapias para tratamento da acne durante a gestação, pois as variantes no organismo da gestante requerem tratamentos seguros nas diferentes patologias (AWAN & LU, 2017).

Tratamentos seguros para doenças dermatológicas durante a gravidez
Doença Substância ativa
Acne Clindamicina tópica, eritromicina, peróxido de benzoílo
Rosácea Metronidazol, ácido azeláico
Psoríase Corticosteróides tópicos, calcipotriol, ampla banda UVB
Dermatite Corticosteróides tópicos, difenidramina ou clorfeniramina
Infecção genital pelo papilomavírus humano (HPV) Ácido tricloroacético, nitrogênio líquido
Infecção pelo vírus herpes simples Aciclovir
Infecções fúngicas Antifúngicos tópicos
Infecções bacterianas Penicilina, cefalosporina após primeiro trimestre, azitromicina

Tratamento da acne vulgar durante a gravidez

Um numero substancial de mulheres no período gestacional são acometidas pela acne.Estudos apontam que apesar da acne ser uma questão estética, a acne afeta a qualidade de vida e o bem estar dessas pacientes. O tratamento da acne vulgar durante a gravidez é muitas vezes limitados devido as terapias mais comuns e eficazes apresentarem potencial toxicidade ao feto (AWAN & LU, 2017).

A acne é um problema comum encontrado por mulheres grávidas e lactantes. Infelizmente, na prática clínica, o tratamento é muitas vezes não otimizado, como resultado da falta de dados de segurança e recomendações unificados sobre a utilização das várias terapias anti-acne. Um estudo propõe que o uso de medicamentos tópicos é o mais recomendado como tratamento de primeira linha em gestantes e lactantes. Estes incluem antibióticos (eritromicina, clindamicina, metronidazol e dapsona), ácido azelaico e ácido salicílico (KONG & TEY, 2013; AWAN & LU, 2017).

O peróxido de benzoíla é seguro para utilização em mulheres grávidas e em lactação, pois é degradado em ácido benzóico (WORRET & FLUHR, 2006; AWAN & LU, 2017).

Agentes orais (macrólidos orais, como a eritromicina e azitromicina, cefalexina ou compostos de zinco) e/ou terapia a laser podem ser considerados como tratamentos de segunda linha. A terapia constituída pela tetraciclina, cotrimoxazol e fluoroquinolonas e retinóides oral e tópica, deve ser evitadas (KONG & TEY, 2013).

O metronidazol tem um excelente registro de segurança durante a gravidez e é frequentemente utilizado como tratamento de escolha para várias infecções não dermatológicas comuns durante a gravidez. Quando confrontado com um paciente resistente a antibióticos orais padrão, nosso caso mostra que a seleção do metronidazol oral pode ser um próximo passo seguro e razoável (AWAN & LU, 2017).

Tratamento da rosácea fulminante

Rosácea fulminante é uma doença rara, com preponderância do sexo feminino e de etiologia desconhecida, caracterizada pelo início abrupto de pápulas, pústulas e eritema que afetam a face. Corticosteróides e isotretinoína são considerados os dois principais agentes terapêuticos, porém, são contraindicados no período gestacional (LEWIS et al., 2004; DEMIR et al., 2018).

A rosácea fulminante é caracterizada por início rápido, curso fulminante, localização estrita na face, ausência de comedões e ausência de lesões acneiformes no peito ou nas costas. As lesões características são papulopústulas e nódulos superficiais combinados com eritema cianótico (DEMIR et al., 2018).

Segundo Ferahbas e colaboradores (2006) apontam em estudo o caso de uma gestante de 31 anos que apresentou rosácea fulminante durante o primeiro trimestre de sua segunda gravidez. Ela teve múltiplas pápulas eritematosas, pústulas, nódulos, cistos e corrimento purulento no rosto.
No tratamento da rosácea fulminante as abordagens terapêuticas são corticosteróides sistêmicos. Foram utilizadas obtendo nítida melhora no período de dois meses e, posteriormente, apenas 0,75% metronidazol creme tópico foi administrado durante o segundo trimestre da gestação (FERAHBAS et al., 2006).

Tratamento da psoríase

A psoríase pode ser de uma linha imunomediada, podendo estar relacionada com fatores genéticos, sendo impactata por fatores ambientais. Sua etiologia pode ser devido a estimulo das células Th1 e Th17. Alterações hormonais pode estar ligado a respostas biológicas e imunobiológicas associadas ao tecido cutâneo. E na gestação está implicta alterações endócrinas pronunciadas, bem como a modulação substancial da resposta imune, favorecendo um estado de tolerância feto-materna (VENA et al., 2015).

O tratamento da psoríase com corticosteróides de uso tópico e calcipotriol tópica. Estas opções parecem ser escolhas seguras para o controle da psoríase na gestação. Aterapia com UVB é mais seguro para o tratamento de psoríase extensa durante a gestação, particularmente, quando a aplicação tópica de outros agentes não é prática (TAUSCHER et al., 2002; VENA et al., 2015).

Metotrexato e acitretina são contraindicados durante a gestação. O metotrexato pode ser usado em mulheres com idade fértil que estão usando métodos contraceptivos eficazes. Entretanto, a gravidez deve ser evitada durante, pelo menos, um ciclo ovulatório após esta medicação ser interrompida. A acitretina não deve ser prescrita para mulheres em idade fértil (ZIP, 2006).

Todos os retinóides, tanto tópico e oral, são contraindicados durante a gravidez, devido à teratogenicidade, especialmente no primeiro trimestre. Um período de pelo menos dois anos entre a interrupção do retinóides orais e a gravidez é recomendado para anular os efeitos teratogênicos. Mulheres que pensam em ficar grávida ou com risco de engravidar devem estar conscientes sobre os riscos antes de iniciar o tratamento (WEATHERHEAD et al., 2007; VENA et al., 2015).

Tratamento da dermatite

A dermatite atópica (DA), também conhecida como eczema, é uma das doenças de pele mais frequentemente observadas em pacientes grávidas. O gerenciamento da dermatite durante a gravidez requer cuidados especiais para evitar prejudicar o feto (BABALOLA & STROBER, 2013; AWAN & LU, 2017).

Em alguns estudos, a exposição à corticosteróides sistêmicos no primeiro trimestre tem sido associada com o retardo de crescimento intra-uterino e um pequeno aumento na incidência de lábio leporino com ou sem palato fendido (ZIP, 2006; AWAN & LU, 2017).

No entanto, quando necessário, os benefícios maternos do uso de curta duração de corticosteróides orais parecem superar os riscos ao feto, especialmente quando utilizados após o primeiro trimestre (ZIP, 2006; AWAN & LU, 2017).

Os inibidores da calcineurina tópicos, tacrolimus e pinecrolimus são ativos cujo risco não pode ser descartado. O uso de tacrolimus oral em pacientes grávidas receptores de órgãos transplantados não foi associado com a perda do feto ou teratogenicidade até agora (ZIP, 2006).

O pinecrolimus não mostrou nenhuma evidência de teratogenicidade em estudos realizados com animais. Até o momento, não houveram relatos de efeitos adversos sobre a gravidez com o uso tópico de tacrolimus ou pimecrolimus (ZIP, 2006).

No tratamento da dermatite atópica, a clorfeniramina e adifenidramina foram consideradas opções de antihistamínicos para uso oral e parenteral, respectivamente. Apesar de um estudo caso-controle ter apresentado uma associação entre o uso de difenidramina no primeiro trimestre e o apareceimnto de fenda palatina. O uso de antihistamínicos, em geral, têm sido associado a fibroplasia retrolental em prematuros quando tomado nas últimas 2 semanas da gestação (ZIP, 2006).

Referências

  1. Awan, S. Z., & Lu, J. Management of severe acne during pregnancy: A case report and review of the literature. International journal of women’s dermatology, 3(3), 145-50, 2017.
  2. Babalola, O.; Strober, B.E. Treatment of atopic dermatitis in pregnancy. Dermatol Ther. 26(4), 293-01, 2013.
  3. Demir, O., Tas, I. S., Gunay, B., & Ugurlucan, F. G. A Rare Dermatologic Disease in Pregnancy: Rosacea Fulminans- Case Report and Review of the Literature. Open access Macedonian journal of medical sciences. 6(8), 1438-41, 2018.
  4. Ferahbas, A. et al. Rosacea fulminans in pregnancy: case report and review of the literature. Am J Clin Dermatol. 7(2):141-4.
  5. Hautarzt. [Dermatologic therapy in pregnancy]. 61(12), 1046-51, 2010.
  6. Kong, Y.L.; Tey, H.L. Treatment of acne vulgaris during pregnancy and lactation. Drugs. 73(8), 779-87, 2013.
  7. Leachman, S.A.; Reed, B.R. The use of dermatologic drugs in pregnancy and lactation. Dermatol Clin. 24(2), 167-97, 2006.
  8. Lewis, V.J. et al. Rosacea fulminans in pregnancy. Br J Dermatol. 151(4), 917-19, 2004.
  9. Tauscher, A.E. et al. Psoriasis and pregnancy. J Cutan Med Surg. 6(6), 561-70, 2002.
  10. Vena, G. A., Cassano, N., Bellia, G., & Colombo, D. Psoriasis in pregnancy: challenges and solutions. Psoriasis (Auckland, N.Z.). 5, 83-95, 2015.
  11. Weatherhead, S.; Robson, S.C.; Reynolds, N.J. Management of psoriasis in pregnancy. BMJ. 334(7605), 1218-20, 2007.
  12. Worret, W.I.; Fluhr, J.W. [Acne therapy with topical benzoyl peroxide, antibiotics and azelaic acid]. [Article in German]. J Dtsch Dermatol Ges. 4(4), 293-00, 2006.
  13. ZIP, C. A practical guide to dermatological drug use in pregnancy. Skin Therapy Lett. 11(4),1-4, 2006.

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