Acne inflamatória

A dieta e seus efeitos na microbiota intestinal

Nutrientes como as vitaminas, amino ácidos e uma dieta de fibras que são consumidos pelo homem, são assimilados e convertidos em outros metabólitos pela microbiota intestinal. Muitos produtos destas conversões bioquímicas, como ácidos graxos de cadeia curta (AGCC), aminas biogênicas (como a histamina) e outros metabólitos derivados de amino ácidos como a serotonina ou o acido gama-aminobutírico (GABA), podem ser biologicamente ativados na saúde e em estados de doença, até mesmo para o tratamento de acne inflamatória. A produção destes componentes podem também induzir mudanças na composição microbiana. Uma dieta de carboidratos não digerida pode ser fermentada no lúmen intestinal, resultando na produção de AGCC como acetato, propionato e butirato. AGCC metabolicamente ativos envolvem em muitos processos biológicos promovendo fonte de energia metabólica para as células epiteliais humanas do cólon. Além disso, a fermentação de carboidratos probióticos como a inulina e fruto-oligossacarídeos induzem a proliferação de microbiomas benéficos (como Bifidobacterium spp. e o Lactobacillus spp.) no trato gastrointestinal (PENDYALA, et al., 2012).

lactobacillus - figura

Fonte: PENDYALA, et al., 2012

O consumo de dieta enriquecida em gordura tem sido sugerida por afetar a microbiota intestinal, como demonstrado em um recente estudo clínico envolvendo voluntários sadios que foram submetidos a uma dieta rica em gordura por 1 mês. Os níveis de endotoxinas no plasma foram aumentados nos indivíduos que receberam a dieta, quando comparado aos que receberam dieta isocalórica, o que pode resultar em perturbações na microbiota intestinal (PENDYALA, et al., 2012).

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Um recente estudo analisou os metagenomas fecais de indivíduos de diferentes países utilizando análise de fragmentos multidimensionais e análise dos principais componentes das fezes. Os autores dividiram os metagenomas fecais em três diferentes enterotipos. Estes enterotipos foram identificados por amostras de todos os três gêneros: Bacteroides (Enterotipo 1), Prevotella (Enterotipo 2) e Ruminococcus (Enterotipo 3). Interessantemente, estes enterotipos foram independentes do sexo, nacionalidade, idade e Índice de Massa Corporal (IMC) (ARUMUGAM, et al., 2011). Entretanto, outro estudo sugere que a prevalência dos enterotipos está fortemente associada com a manutenção de uma dieta por longo tempo.  Bacteroides está fortemente associado ao consumo de proteínas animais e gordura saturada, enquanto o Prevotella foi associado a uma dieta de carboidratos, consistindo em açúcares simples e fibras (WU, et al., 2011).

 

Microbiota intestinal e acne

MICROBIOTA

Stoke e Pillsburry em 1930 criaram a “consideração teórica e prática do mecanismo gastrointestinal” pelos caminhos no qual a pele é influenciada pelo estado emocional e nervoso. Estes autores conectaram o estado emocional – depressão, ansiedade e preocupação – as alterações na função do trato gastrointestinal. Hipotizaram que alterações nos estados emocionais podem levar a mudanças na microbiota intestinal normal, aumentar a permeabilidade intestinal e contribuir para a inflamação sistêmica. Assim, o uso oral de probióticos pode regular a liberação de citocinas inflamatórias dentro da pele, e uma regulação específica em interleucina 1 (IL1) seria, certamente, um potencial benéfico no tratamento da acne. Além disso, a utilização de probióticos encapsulados orais tem o potencial de alterar a microbiota em locais além do trato gastrointestinal (BOWE; LOGAN, 2011).

Um estudo pioneiro realizado com 300 pessoas com acne receberam uma mistura de probióticos (L. acidophilus e L. bulgaricus) via oral durante 8 semanas, seguido de um período de duas semanas de wash-out, e reintrodução dos probióticos por um adicional de 8 dias. Os resultados do estudo mostram que 80% das pessoas com acne apresentam algum grau de melhora clínica, e que a intervenção com probióticos foi mais efetiva em casos de acne inflamatória (SILVER, 1961).

Citando pesquisas que mostram que até 40% das pessoas com acne apresentam hipocloridria, os autores levantaram a hipótese de que uma quantidade de ácido no estômago bem menor que o adequado poderia definir o cenário de migração de bactérias do cólon em direção ás porções distais do intestino delgado, bem como uma alteração da microflora intestinal normal.  Os autores sugerem que uma forma de cortar o ciclo de tensão induzido pelo estresse é fazendo uma introdução direta de organismos acidófilos, tais como os Bacillus acidophilus. A hipocloridria é um fator de risco para a ocorrência de supercrescimento bacteriano no intestino (SCBI). O SCBI é 10 vezes mais prevalente em pessoas com acne rosácea, que em indivíduos saudáveis. A correção do SCBI leva a uma marcada melhora clínica em pacientes com rosácea, a administração de probióticos pode ser benéfica para a inibição deste (PARODI, et al., 2008).

Um estudo envolvendo 40 pacientes avaliou a eficácia da regulação da flora bacteriana intestinal com probióticos na terapia da acne vulgar. Para tal, os pacientes foram divididos em 2 grupos: Grupo A recebeu tratamento padrão da acne, com antibióticos; e o Grupo B recebeu o mesmo tratamento padrão associado a um suplemento oral de L. acidophilus e B. bifidum como adjuvante. Além de melhores resultados clínicos entre os pacientes suplementados com os probióticos, os pesquisadores relataram melhor adesão terapêutica ao tratamento com antibióticos, reduzindo os efeitos  adversos dos mesmos (MARCHETTI, et al., 1987).

A pele humana normal pode produzir uma gama de produtos químicos antimicrobianos, que desempenham um papel importante na eliminação de agentes patogênicos cutâneos. Lactobacillus plantarum é uma bactéria gram positiva que produz peptídeos antimicrobianos, os quais quando aplicados na pele podem agir como antiinflamatórios, bem como aumentar as propriedades antimicrobianas da pele. Foram conduzidos estudos clínicos para determinar o efeito de extratos de lactobacillus (5%) na melhora da barreira cutânea e na redução de edema, microflora cutânea e acne. Os resultados dos estudos foram satisfatórios, com melhora na redução do eritema cutâneo, reparação da barreira cutânea e redução da microflora, bem como exibiu uma redução significativa no tamanho das lesões de acne e do eritema (MUIZZUDDIN, et al., 2012).

acneFoi realizado um estudo com 45 mulheres com idade entre 18 e 35 anos diagnosticadas com acne vulgaris, onde estas foram divididas em 3 grupos: Grupo A recebeu suplementação com probióticos, enquanto o Grupo B foi tratado apenas com minociclina. O Grupo C recebeu ambos os tratamentos, probióticos e antibiótico. Após 4 semanas do início do tratamento todos os pacientes apresentaram melhora no total das lesões. Nas semanas 8 e 12 do tratamento o Grupo C apresentou uma significativa redução no número total das lesões. Dois pacientes do Grupo B (13%) não completaram o estudo, pois apresentaram candidíase vaginal. Assim, os probióticos podem ser considerados uma opção terapêutica ou um adjuvante no tratamento da acne vulgaris, por promover um efeito antiinflamatório sinérgico com o antibiótico sistêmico, e ainda reduz o potencial efeito adverso causado pelo uso de antibióticos (JUNG, et al., 2013).

Embora seja geralmente aceito que a Propionibacterium acne está envolvida no desenvolvimento da acne, outras bactérias, incluindo Staphylococcus epidermides têm sido isoladas de lesões de acne. Um estudo recente examinou os efeitos da interação entre Lactobacillus reuteri, uma bactéria probiótica, e bactérias acneicas (P. acnes e S. epidermides). Para tal, foram utilizadas cepas de L. reuteri derivadas de humanos e de ratos. Todas as cepas de L. reuteri exibiram um efeito inibitório significativo no crescimento de P. acnes e S. epidermides. A proliferação de P. acnes diminuiu em uma escala de 2-Log após a incubação com L. reuteri em 24h e o crescimento de S. epidermides dimiuiu na escala de 3-Log, enquanto o crescimento de L. reuteri não foi afetado pela presença dos microrganismos. A atividade antibacteriana mais pronunciada de L. reuteri foi atribuída a produção de ácidos orgânicos. Em geral, os resultados do estudo sugerem que o L. reuteri pode ser um agente probiótico útil para controlar o crescimento de bactérias envolvidas na acne inflamatória e na prevenção da ocorrência do mesmo (KANG, et al., 2012).

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Arumugam, M. Linkage of gut microbiome with cognition in hepatic encephalopathy. Am J Physiol Gastrointest Liver Physiol . 2011 302: G168-G175.

Jung GW, Tse JE, Guiha I, Rao J. Prospective, Randomized, Open-Label Trial Comparing the Safety, Efficacy, and Tolerability of an Acne Treatment Regimen with and without A Probiotic Supplement and Minocycline in Subjects with Mild to Moderate Acne. J Cutan Med Surg. 2013 Mar-Apr;17(2):114-22.

Kang MS, Oh JS, Lee SW, Lim HS, Choi NK, Kim SM. Effect of Lactobacillus reuteri on the proliferation of Propionibacterium acnes and Staphylococcus epidermidis. J Microbiol. 2012 Feb;50(1):137-42. doi: 10.1007/s12275-012-1286-3. Epub 2012 Feb 27.

Marchetti F, Capizzi R, Tulli A. Efficacy of regulators of the intestinal bacterial flora in the therapy of acne vulgaris. Clin ter 1987, 122:339-43, Italian.

Muizzuddin N, Maher W, Sulliwan M, Schnittger S, Mammone T. Physiological of a probiotic on skin. J Cosmet Sci. 2012 Nov-Dec;63(6):385-95.

Parodi A, Paolino S, Greco A, Drago F, Mansi C, Rebora A, et al. Small intestinal bacterial overgrowth in rosacea: clinical effectiveness of its eradication. Clin Gastroenterol Hepatol 2008, 6:759-64.

Pendyala S, Walker JM, Holt PR. A high-fat diet is associated with endotoxemia that originates from the gut. Gastroenterology. 2012. 142: 1100-1101. E2.

Silver RH. Lactobacillus for the control of acne. J Med Soc New Jersey. 1961, 59:52-53.

Stokes JH, Pillsbury DH. The effect on the skin of emotional and nervous states: theoretical and practical consideration of a gastrointestinal mechanism. Arch Dermatol Syphilol 1930, 22:962-93.

Wu GDChen JHoffmann CBittinger K, et al. Linking long-term dietary patterns with gut microbial enterotypes. Science 2011. 334: 105-108.

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