Eficácia no tratamento da dislipidemia com fitoterápicos

Diferentes fitoterápicos com potencial ação para tratar a dislipidemia

A dislipidemia pode ser definida como a elevação dos níveis séricos do colesterol, triglicérides, LDL, enquanto os níveis de HDL permanecem baixos. Este desequilíbrio é considerado um fator de risco alto para induzir aterosclerose e doença cardiovascular (DCV), alterações que levam a desosrdens nos tecidos endoletilal e cardiovascular (HARNAFI et al., 2008; ROUHI-BOROUJENI et al., 2015). Entre os diferentes com potencial ação para tratar a dislipidemia é importante avaliar a eficácia no tratamento da dislipidemia com fitoterápicos.

A dislipidemia é um fator de risco modificável independente para doença coronariana e tem demonstrado aumentar o risco de mortalidade cardiovascular em muitos casos (HARNAFI et al., 2008; ROUHI-BOROUJENI et al., 2015; NASSER et al., 2013).

Diferentes fatores tem sido associados aos distúrbios dos níveis de colesterol, tabagismo, fator genético, aumento de peso corpóreo, aumento da pressão arterial e uma dieta com elevado teor de gordura. A eliminação desses fatores muitas vezes é a grande demanda para que o individuo alcance os limiares normais do níveis lipídicos.

Outro alternativa a redução dos níveis de lipídios seria a utilização de diferentes fitoterápicos com potencial ação na terapêutica da dislipidemia (TONKIN & BYRNES, 2014; NASSER et al., 2013).

É extremamente importante reconhecer a necessidade de tratamento da dislipidemia e instituir terapias necessárias para reduzir os riscos a longo prazo de recorrência da doença ou modificar os distúrbios metabólicos que promovem a aterosclerose. Drogas usadas na dislipidemia podem causar efeitos adversos se usadas por mais tempo (TONKIN & BYRNES, 2014; NASSER et al., 2013).

Vários fitoterápicos tem mostrado eficácia no tratamento da dislipidemia

Alcachofra

A Cynara scalymus, popularmente conhecida como alcachofra, é um importante componente da dieta mediterrânea, e é rico em componentes fenólicos bioativos, inulina, fibras e minerais. Tem sido utilizada ultimamente pela medicina tradicional como um medicamento, para fins terapêuticos.

Possui uma ampla aplicação, dentre elas a atividade protetora contra danos no DNA induzidos por agentes alquilantes tóxicos. Pode ser utilizado no tratamento de hepatites, hiperlipidemia, obesidade e desordens dispépticas (NASSAR et al., 2013; QUINNA et al., 2012).

A alcachofra tem demonstrado através de vários estudos clínicos o seu efeito hipocolesterolemiante, com expressiva redução dos níveis de colesterol total e LDL, especialmente em pacientes com hipercolesterolemia leve (RONDANELLI et al., 2013).

Um estudo duplo cego, controlado por placebo, envolveu 92 pessoas com sobrepeso e hipercolesterolemia leve em uma triagem clínica, para avaliar o perfil glicêmico destes pacientes, com o uso de extrato de alcachofra. Para tal, os participantes foram divididos em 2 grupos, onde receberam alcachofra 250mg ou placebo, duas vezes ao dia, por 8 semanas.

A suplementação foi associada a significativo aumento de HDL-colesterol, no grupo tratado. Além de uma diferença de redução significativa nos níveis de colesterol total (CT) e LDL, quando comparado ao grupo placebo. Os resultados do trabalho indicam que o extrato da planta apresenta um papel importante, especialmente no aumento de HDL, apesar de também reduzir colesterol total (CT) e as frações de LDL (RONDANELLI et al., 2013).

Outro estudo realizado com 143 adultos com hiperlipoproteinemia avaliou o tratamento com 450mg de extrato de alcachofra, duas vezes ao dia, comparado ao placebo. Após 6 semanas de tratamento, os resultados apontaram uma redução de 18,5% do colesterol total no grupo tratado, 22,9% de colesterol LDL e uma taxa de redução de LDL/HDL de 20, 2%.

Os estudos também apontam para a eficácia da alcachofra no tratamento da hiperlipoproteinemia, e ainda na prevenção de aterosclerose e doenças coronariana (ENGLISCH et al., 2000).

Barrat e colaboradores (2013) também obtiveram o mesmo resultado, em estudo realizado com 45 pessoas com hipercolesterolemia não tratada. Ao final do estudo os indivíduos apresentaram uma redução significativa do colesterol LDL e mostrou-se seguro.

Qiang e colaboradores (2012) também avaliaram a eficácia do extrato da alcachofra na dislipidemia em hamsters, e também encontraram significativas reduções do colesterol total e LDL, e aumento de HDL. Além disso, observaram após 21 dias, que o mecanismo pelo qual ha regulação do perfil lipídico, envolve a maior excreção fecal de ácidos biliares e esteróis neutros após alimentar.

Curcuma longa

A Curcuma longa possui uma forte atividade antioxidante e propriedades preventivas contra o desenvolvimento do câncer. Também reduz os níveis de glicose no sangue e hemoglobina glicada, por diminuir o estresse oxidativo em ratos diabéticos (QINNA et al., 2012).

Recentes evidências sugerem potenciais benefícios de fitoquímicos e micronutrientes em reduzir o estresse oxidativo elevado, mediado por lipídeos associados à inflamação, obesidade e aterosclerose. Esses compostos podem sequestrar diretamente as espécies reativas de oxigênio, ou podem modular a atividade de enzimas de transdução de sinais que levam a alterações na expressão de genes antioxidantes.

Alternativamente, podem reduzir os níveis lipídicos plasmáticos pela modulação dos genes lipídicos metabólicos nos tecidos e, assim, reduzir indiretamente o estresse oxidativo mediado pelos lipídeos e o retículo endoplasmático pelo seu efeito hipolipemiante. Estudiosos propõem que a curcumina (polifenol presente nos rizomas da Curcuma longa) influencia o estresse oxidativo mediada pelos lipídeos no sistema vascular (ZINQQ et al., 2013).

Em nível molecular, crescentes evidências experimentais sugerem que a curcumina age quimicamente eliminando os radicais livres e/ou interferindo no mecanismo de transdução de sinal e modula a atividade de fatores de transcrição específicos (por exemplo, FOXO1/3a, NRF2, SREBP1 / 2, CREB, CREBH, PPAR, e LXRα) que regulam a expressão de genes envolvidos na eliminação de radicais livres (por exemplo, a catalase, MnSOD, e heme oxigenase-1) e da homeostase de lipídios (por exemplo, aP2/FABP4, CD36, inibidores da HMG-CoA redutase, e carnitina palmitoil-I (CPT-1)) (ZINQQ et al., 2013).

Para confirmar essa hipótese, um estudo realizado com 38 pessoas saudáveis, entre 40 e 60 anos de idade, receberam dose diária de 80mg de Curcuma longa. Foram analisadas amostras de sangue e saliva dos pacientes, antes e após 4 semanas de suplementação.

O grupo tratado apresentou redução dos valores de triglicérides plasmáticos, diminuição dos níveis de amilase salivar, elevando a capacidades de eliminação de radicais salivares, elevando a atividade da catalase no plasma, reduzindo as concentrações da proteína beta amilóide no plasma. Ocorreu também aumento de mieloperoxidase no plasma sem alterar os níveis de proteína C-reativa, e diminuição da atividade da alanina amino transferase.

Coletivamente os resultamos mostram que a curcumina apresenta uma variedade de efeitos benéficos ao organismo por meio de diferentes mecanismos (DI SILVESTRO et al., 2012).

Propriedade antidislipidêmica de uma combinação de extratos naturais

Qinna e colaboradores publicaram em 2012 um estudo sobre os efeitos da combinação de Cynara scolymus (Alcachofra), Curcuma longa (Turmeric), Opuntia fícus indica e Allium sativum (extrato de alho), na prevenção de dislipidemia em ratos.

A alcachofra, como citado acima possui eficácia na redução do colestero total, LDL e aumento de HDL. A Curcuma longa possui uma forte atividade antioxidante e propriedades preventivas do câncer. Também reduz os níveis de glicose no sangue e hemoglobina glicada, por diminuir o estresse oxidativo em ratos diabéticos. Muitos estudos tem descrito sua ação hipolipêmica em ratos (KANG et al., 2009; QINNA et al., 2012).

Já o cacto Opuntia fícus indica é bem conhecido por suas propriedades antidiabéticas e por diminuir os níveis lipídicos, é também utilizada na obesidade, na ressaca induzida por álcool, colite, diarréia e na hipertrofia prostática benigna. Evidências mostram que o cacto pode reduzir os níveis de colesterol em humanos e modificar a composição de LDL (RODRIGUEZ-FRAGOSO et al., 2008).

O Allium sativum apresenta numerosos estudos sugerindo sua capacidade de normalizar os níveis lipídicos, melhorar a atividade fibrinolítica e reduzir a pressão sanguínea (MC RAE et al., 2005).

Estudo

Qinna e colaboradores (2012) investigaram o efeito natural dos extratos naturais para prevenir a elevação dos lipídeos sanguíneos. Para tal, ratos pesando em torno de 250g, foram divididos em 8 grupos:

Grupo 1: Atorvastatina 10mg/Kg
Grupo 2: Extrato de alcachofra 26mg/Kg
Grupo 3: Curcuma longa 80mg/Kg
Grupo 4: Cacto 22mg/Kg
Grupo 5: Extrato de alho 17mg/Kg
Grupo 6: Combinação 1: alcachofra, Curcuma longa e cacto
Grupo 7: Combinação 2: alcachofra, Curcuma longa, cacto e extrato de alho.
Grupo 8: Controle

As dosagens acima correspondem a doses diárias de alcachofra 1.8, Curcuma longa, 5.6, cacto de 1.5 e extrato de alho 1.2g/dia, respectivamente. Os grupos foram tratados por um peridodo de 2 semanas e com uma dieta rica em gordura, por apenas 10 dias.

Após o tratamento, observa-se que ambas as combinações, combinações 1 e 2, diminuíram o colesterol e os níveis de LDL de 8-12%. Houve uma diminuiu significativa nos níveis de triglicerídeos, LDL/HDL, e aumentou significativamente os níveis de HDL (Figura 1) (QINNA et al., 2012).

Figura 1: Efeito de duas combinações de fitoterápicos nos níveis lipídicos séricos em comparação ao tratamento simples (fitoterápicos isolados). Adaptado de QINNA et al., 2012.

Foi avaliado também o efeito dos fitoterápicos na atividade da HMG-CoA redutase. Utilizando 3 concentrações diferentes de cada produto e a sinvastatina, como controle positivo, resultou em significativa redução da enzima, nas três concentrações da atorvastatina.

Alcachofra e o Cacto, em altas concentrações, inibiram significativamente a atividade da enzima. Os outros fitoterápicos não apresentaram efeito significativo sobre a atividade da enzima (Figura 2) (QINNA et al., 2012).

Figura 2: Efeito de extratos naturais na atividade da HMG-CoA redutase em diferentes concentrações. O tratamento da dislipidemia requer hoje o uso por um longo prazo de drogas antihiperlipidemicas. Assim, faz-se necessário o uso de uma combinação de extratos naturais que exerce efeito similar com múltiplos mecanismos de ação e com menos efeitos adversos. As combinações de fitoterápicos podem ser utilizadas sozinhas como profilaxia, como coadjuvante a um anti hiperlipidêmico. Assim, utilizando a combinação de alcachofra, alcaçuz, cacto e extrato de alho em curto prazo, bem como em longo prazo pode prevenir a ocorrência de dislipidemia, particularmente por inibir a HMG-CoA redutase (QINNA et al., 2012).

REFERÊNCIAS

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    3. Englisch W, Beckers C, Unkauf M, et al. Efficacy of Artichoke dry extract in patients with hyperlipoproteinemia. Arzneimittelforschung. 50(3), 260-65, 2000.
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    7. McRae M P, A review of studies of garlic (Allium sativum) on serum lipids and blood pressure before and after 1994: does the amount of allicin release from galic powder tablets play a role? Journal of pharmacy research. 4(4), 182-90, 2005.
    8. Nasser MI, Mohamed TK, Elshami AL, El-Toumy SA, Abdel Lateef AM, Farraq AR. Chemical constituents and anti-ulcerogenic potential of the scales of Cynara scolymus (artichoke) heads. J Sci Food Agric. 93(10), 2494-01, 2013.
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    14. Rouhi-Boroujeni, H., Heidarian, E., Mohammadizadeh, F., & Rafieian-Kopaei, M. Herbs with anti-lipid effects and their interactions with statins as a chemical anti- hyperlipidemia group drugs: A systematic review. ARYA atherosclerosis. 11(4), 244-51, 2015.
    15. Tonkin, A., & Byrnes, A. Treatment of dyslipidemia. F1000prime reports. 6, 17, 2014.
    16. Zinqq JM, Hasan ST, Meydani M. Molecular mechanisms of hypolipidemic effects of curcumin. Biofactors. 39(1), 101-21, 2013.

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